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9/2/2010 - 14:08 - A vez dos "porcos"
Autor: Orlando Caliman
Porco em inglês é “pig”. Mas, por aproximação sonora, o mercado global – diga-se, por excelência o mercado financeiro – está denominando os países europeus, que estão deflagrando a onda atual de apreensões e queda geral das bolsas de valores, de “piigs”. Palavra que se extraído o “i” tem o significado de “porcos”. No entanto trata-se de uma sigla cujas iniciais indicam os países sob suspeita: Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (Spain em Inglês). O que há de comum nesses países é o grande buraco nos seus orçamentos, um dos principais legados da crise. Todos eles apresentam déficits que se aproximam e até ultrapassam do equivalente a 10% dos seus respectivos PIBs.
Estivéssemos, no geral, num ambiente mais saudável economicamente não teríamos tanto problema. No entanto, o que conta efetivamente agora são as expectativas em relação ao que possa acontecer caso um ou mais desses países não consiga honrar os seus compromissos. E é, sobretudo, esse temor que tem movido o mercado a uma situação de instabilidade e conseqüente insegurança. Na verdade, o que as bolsas fazem é precificar expectativas, sejam elas boas ou ruins. Da mesma forma que vinham precificando expectativas boas até duas semanas atrás. Estas últimas, talvez, até acima do que poderia oferecer a economia real – aquela que conta -.
Num recente artigo meu nesse mesmo espaço de opinião eu já alertava sobre a hipótese da bolsa estar “insuflada” mais por expectativas boas do que demonstravam os números do dia a dia. O que houve foi uma precificação para cima; um “overshooting” na linguagem do mercado. Mas, como diz um ditado popular, quanto mais alto maior o tombo. E foi o que aconteceu: o tombo foi maior do que o esperado. Basta lembrar que o limite mínimo de corte de pontos estava sendo projetado pelo mercado para chegar a 65.000. Já caiu bem mais. Mas, voltará a crescer.
Mas, tudo isso por conta dos tais “porcos”, países que ao serem “emporcalhados” por demais pela crise, não estão conseguindo se desvencilhar dos seus “dejetos” indesejáveis – títulos com maior risco -. Todos eles tiveram que fazer uso intensivo de políticas fiscais anticíclicas para reduzir os impactos negativos da crise e fazê-la reverter. A questão é que praticamente todos eles já vinham de situações de déficits não desprezíveis, porém administráveis. Como agora a retomada está se revelando mais dolorosa e longa, estes se vêem pressionados pelo mercado, que questiona as suas capacidades de pagar o que devem.
Mas, o que tem a ver o Brasil, ou mais especificamente a bolsa de valores brasileira, com isso? Primeiramente temos que ter em mente que os mercados financeiros são interconectados. São efetivamente globalizados, e, portanto, sensíveis a quaisquer movimentos que acontecem no mundo. No nosso caso a lógica foi perfeita: caiu a bolsa, subiu o dólar. É um jogo de apostas, cujo cenário de referência é orientado preponderantemente por expectativas. No curto prazo esse movimento não tem muito a ver com a economia real. O Brasil vai crescer fortemente em 2010. Agora, temos que estar atentos para não nos transformarmos em “porcos” lá na frente, pelo excesso de gastos públicos correntes.
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